domingo, 14 de março de 2010

PARÁBOLA DO CREDOR INCOMPASSIVO




" O reino dos céus é comparado a um rei, que resolveu ajustar contas com os seus servos. Ao fazê-lo, apresentou-se-lhe um que devia dez mil talentos; mas, como não tivesse com que pagar, ordenou o seu senhor que vendesse a ele, a sua mulher, a seus filhos e tudo o que tinha, para ficar quite da dívida.

O servo, porém, lançando-se-lhe aos pés, suplicou-lhe: Tem paciência comigo, que tudo pagarei. Então o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o livre, e perdoou a dívida.

Tendo saído o tal servo, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem denários, e, agarrando-o, sufocava-o, dizendo: Paga o que me deves.

O companheiro, lançando-se-lhe aos pés, implorou: Tem paciência comigo, que tudo te pagarei. Ele porém, não o atendeu. Retirou-se e fez que o metessem na cadeia, até pagar a dívida.

Vendo, pois, os outros servos, o que se tinha passado, ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia acontecido.

Então o senhor chamou-o à sua presença e disse-lhe: servo malvado, eu te perdoei toda aquela dívida, por que vieste rogar para isso; não devias tu também ter compaixão de teu companheiro, como eu tive de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo quanto lhe devia.

Assim também meu pai celestial vos fará, se cada um de vós, do íntimo do coração, não perdoar a seu irmão."


Mat,18:23-25





Esta parábola de Jesus é uma ilustração admirável daquela frase contida na oração dominical, em que ele nos ensina a rogar ao Pai celestial ;" perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores".

O primeiro servo era devedor da quantia de dez talentos, soma fabulosa, que, em nossa moeda, equivaleria hoje a uns duzentos milhões de cruzeiros.

Esse devedor, vendo-se ameaçado de ser vendido, e mais a mulher, os filhos, e tudo quanto possuía, para resgate da dívida, pediu moratória, isto é, um prazo para que pudesse satisfazer o tão vultuoso compromisso, e o rei, compadecendo-se dele, deferiu-lhe o pedido.

Pois, bem, mal havia obtido tão generoso atendimento, eis que encontrou um companheiro que lhe devia uma bagatela, ou seja, cem denários (aproximadamente uns quatrocentos cruzeiros)e, para reaver o seu dinheiro, não titubeou em usar de recursos violentos.

Lamentavelmente, esta é ainda em nossos dias a norma de conduta de grande parte da humanidade. Reconhecendo-se pecadora, não nega sobrecarregada de dívidas perante Deus, cujas leis transgride a todo instante, mas, ao mesmo tempo que suplica e espera ser perdoada de todas as suas prevaricações, age, com relação ao próximo, de forma diametralmente oposta, negando-se a desculpar e a tolerar quaisquer ofensas, por mais mínimas que sejam.

Continua a parábola dizendo que o rei, posto a par do que havia acontecido com o segundo servo, mandou vir o primeiro à sua presença e, em nova disposição, após verberar-lhe a falta de consideração para com o seu companheiro, determinou aos verdugos que o prendessem e o fizessem trabalhar à força "até que pagasse tudo quanto lhe devia"
Este tópico da narrativa evangélica é de suma importância. Revela, claramente, que há sempre um limite no pagamento das dívidas. Estas podem, algumas vezes, ser realmente muito vultosas, como no caso prefigurado — dez mil talentos! — mas, uma vez pago esse montante, o devedor fica com direito à quitação.
Semelhantemente, o pagamento de dez mil pecados pode determinar longos períodos de sofrimento, muitas existências expiatórias, mas, uma vez restabelecido o equilíbrio na balança da Justiça Divina, ninguém pode ser coagido a ficar pagando eternamente aquilo de que já se quitou.
Jesus finaliza, afirmando: "Assim também meu Pai celestial vos fará, se cada um de vós, do íntimo do coração, não perdoar a seu irmão.''
Disto se conclui que a vontade de Deus é que nos adestremos na prática do perdão e da indulgência, e, para estimular-nos à conquista dessas virtudes, a todos favorece com Sua
longanimidade(generosidade), e inexcedível misericórdia.
Aqueles, porém, que se mostram impiedosos e brutais nas atitudes que assumem contra os que os ofendem ou prejudicam, faz que conheçam, a seu turno, o rigor da Providência, a fim de que aprendam, por experiência própria, qual a melhor maneira de tratar seus semelhantes .



Do livro do Rodolfo Caligaris : Parábolas Evangélicas à Luz do Espiritismo (os grifos são nossos)

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